Leiam texto sobre Plínio Marcos aqui.

domingo, 19 de setembro de 2010

Ética e Mediocridade

Tenho refletido sobre o fazer artístico, meus companheiros de solidão artística. Talvez, hoje, depois de tudo que já foi dito e feito e depois de um profundo reducionismo de valores e virtudes, pouca referência se tenha sobre o que é Ético, ou seja, sobre o que é uma postura digna de um ser humano e no caso da Arte, de um artista. A peça “O Primeiro Dia Depois de Tudo”, que foi escrita quando eu tinha 24 anos e atualizada agora, fala um pouco desse “tudo” e desse primeiro dia que deve surgir sempre em cada um de nós, como um dever de renovar, de buscar de novo o positivo, os valores, a criação, a harmonia. Estamos cercados pela mediocridade e detectá-la e superá-la é também um dever. Não é fácil, ela é imperiosa e aliada à ignorância mais forte fica. Porém, tal estado não é invencível. Vencer o mediano é ser Si mesmo, porque o médio vem justamente daquilo que quer te igualar a um padrão e matar sua singularidade. Já que a sociedade de consumo não pode dar conta do cada um, precisa formar massas homogenias, pensamentos reduzidos, turbas que querem e desejam as mesmas coisas. É daí que surge uma praga que infesta a arte que alguns fazem, baseada naquilo que o público quer ver. Alguns “iluminados” pensam e falam pelos espectadores e, diga-se, muitos merecem esses que falam e pensam por eles, e produzem “aquilo que o público quer ver”. Porque se o gado não pensa, fala e se rebela, vai mansamente para o matadouro.

Recentemente aconteceu comigo uma das experiências mais desoladoras da minha vida no teatro. Em montagem da minha peça “Dores de Amores”, vi a mediocridade se instalar em cada uma das minhas aspirações. Durante os ensaios vi os participantes do projeto ignorarem e cortarem tudo que dizia respeito à minha busca espiritual, todos os símbolos que coloquei em minha pecinha foram reduzidos a maneirismos e psicologias de acordo com o parco alcance dos atores, que não acreditavam “nisso”. Na época eu estava querendo ser um homem flexível e fui deixando que se apropriassem, coisa que jamais farei outra vez. Aprendi. Preciso defender o que não é meu e eu devo ser guardião, o que é um valor e não aquilo que eu acredito. Não são nossas tolas crenças que nos definem e sim as Virtudes que nos servem de modelo. Preciso defender a Ética e a Justiça e não a minha personalidade e minha vaidade. A montagem de Dores de Amores de 2009 envergonhou meu espírito desde o primeiro dia que assisti e subi ao palco constrangido para agradecer. Na época, eu estava exercitando a capacidade de aceitar, de deixar meu ego quieto, de ouvir a opinião dos outros. Mas, confundi as coisas. Uma coisa é ser flexível, outra é abrir as pernas. Eu sempre fui muito rígido e impositivo, um mandão, por isso estava aceitando tudo calado. Quase morri. Pela Ética não se deixa de lutar. Depois de um tempo fui de novo assistir a montagem e o texto estava bastante adulterado, os atores tinham escrito falas inteiras que jamais teriam sido escritas por mim, falas canhestras, escritas para agradar a um público que quer o riso fácil, a burrice, as piadas vulgares, o entretenimento barato. Pronúncias da mediocridade, condizentes com uma interpretação maneirista, estereotipada, histérica, acordadas com os atores daquele circo de horrores. Mas, não sendo o bastante, o final da peça tinha sido mudado, adulterado, invertendo todo o sentido proposto pelo autor. Tudo isso sem a minha autorização, em uma prova cabal de desrespeito e falta de dignidade e de um crime hediondo contra direitos autorais. O que fiz? Nada. Escrevi um e-mail de desagravo aos produtores, também atores, que não me responderam, como é peculiar aos covardes. Sumiram (embora ainda apareçam em público, praticando o mesmo tipo de arte medíocre). Nunca me pediram perdão, nunca reconheceram o crime. Não é a cara dos nossos tempos? Tenho certeza que pensam que o que fizeram é normal. Poderia processar, poderia ter partido pra agressão física, poderia ter feito um escândalo. Estava fraco na época, irreconhecível. Jamais agirei assim novamente. Aprendi. O que posso fazer? O que tenho feito. Tenho contado essa história em todos os lugares que vou, públicos e privados, para que sirva de alerta para quem pensar em trabalhar com essas pessoas que não quero nomear aqui, mas que são bois nomeados (que se procure no Google). Sigo o ensinamento dos meus pais, que diziam que ser conivente com os criminosos é expor os inocentes à maldade.

A arte é a simbolização lúdica da vida e não a imitação desta. E está na capacidade do espectador a possibilidade de leitura simbólica. Só mesmo a mediocridade pode desejar que, por exemplo, uma asa de anjo em um palco de teatro não seja feita de penas de aves ou plumas compradas na 25 de março. Fazer arte é transformar, resignificar as formas. Mas, cada um vê o que está dentro de si. A galinha vê a galinha. O homem digno encontra a Ética.

Quadro de Mira Schendel, artista espiritual.

2 comentários:

E. Campos disse...

A brigada anti-desrespeito-autoral está sempre a postos.
Pode contar.

Leonardo disse...

"Sejamos como bambus", firmes porém flexíveis. O mundo é símbolo, Leo, e pena de quem não o vê assim, pois é assim que ele nos foi dado.

Abraço.