Leiam texto sobre Plínio Marcos aqui.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Gente famosa

Leonardo Ventura e Priscilla Carvalho, atores que cada vez mais são reconhecidos pelo trabalho que fazem.

Quando estamos começando uma nova produção, quando estamos em cartaz com alguma peça, quando pensamos em realizar algum projeto, quando vamos conversar com algum patrocinador, quando temos alguma idéia, nós, os artistas, estamos sempre assombrados por um fantasma. Embora possamos classificá-lo como “a quimera da mediocridade” ou “a assombração da injustiça”, ele tem nome, e precisa mesmo ter, porque é do nome do fantasma que estou falando. A necessidade de um nome conhecido. Falo do talvez insolúvel problema de ter ou não “gente famosa” no projeto. Gente que faz novela, programa, eventos, aparece em jornais e revistas, e tudo que faça com que uma fuça apareça para um público que se importa muito mais com quantidade do que com qualidade. Sim, podemos pensar que os bons do ofício se destacam e, portanto, ficam famosos, mas, isso não é uma verdade lógica no que diz respeito à fama, é? Há muita gente aparecendo que não tem o menor talento nem a necessidade de aparecer, a não ser por vaidade própria. Ao contrário, muitos dos que aparecem precisariam ser escondidos, porque é vergonhoso quando uma pessoa repleta de incompletude e cheia de boçalidade se auto-intitula aquilo que não é. Ser ator ou atriz, quase todo mundo é, ou já foi alguma vez no teatrinho da escola, escrever todo mundo escreve, ainda que mal, e se pode pintar, dançar, cantar, mas ser artista em uma pesquisa artística, poucos são. Talento não é propensão, insistência teimosa não é vocação.

Nas classes mais baixas e entre os ignorantes (e uma condição não é sinônima da outra), fica mais evidente ainda: quem aparece na televisão ou em uma novela da Rede Globo é muito mais respeitado como artista do que quem tem um trabalho sério e profundo de pesquisa no campo da arte. Nas classes mais altas (os donos do poder e do dinheiro), os chamados artistas famosos são vistos como putas que servem para divulgar uma marca, uma empresa, um produto ou criar uma tola condição de status. Em nosso maravilhoso país é preciso fazer lobby com aproveitadores, diretores de instituições entediados, programadores culturais que pouco sabem do assunto,  para se conseguir fazer arte. Os desconhecidos da mídia praticamente precisam pagar para fazer e aparecer.  Os artistas não são respeitados pelo que fazem e apresentam, mas pelo que representam na mídia. Tal prática parece ser uma prisão desanimadora para quem está começando e como perspectiva única de sucesso só tem a possibilidade de tentar de tudo para ser famoso. Isso não é choro de despeitado, é uma constatação antropológica: vivemos em um tempo de distorção de valores e de perversão social, e já não é de hoje.

Mas, cabe ao público, mediocrizado por informações distorcidas, alimentado por uma indústria rentável e às vezes maldosa, não se deixar enganar. Aos que poderiam ter uma Arte Ética, de acordo com uma vida ética, cabe aumentar seus recursos de inteligência crítica e se defender da unanimidade burra e do pensamento pasteurizador. São os espectadores que devem ousar, ir atrás do desconhecido, do que nem imaginam que exista, mas existe, do que é bom , mas não está na TV. Do que tem qualidade, mas ainda não foi encontrado e estragado por um senso comum que nivela tudo ao gosto das indústrias de massas. Acreditem, espectadores, há vida fora da televisão. Caso não encontrem, exijam.

O que eu devo fazer quando termino de escrever uma peça? Com quem devo montá-la? Preciso sobreviver, pagar contas. Já passei por algumas experiências, sei de algumas diferenças. Vi o dinheiro entrar na minha conta de um jeito avassalador quando minha peça foi montada por famosos, vi o teatro à míngua quando excelentes atores “desconhecidos” montaram. O que dizer para quem quer fazer teatro hoje? O que dizer para um jovem ator? Devo dizer para ele levar uma fita a uma emissora de TV, uma daquelas fitas (sou do tempo das fitas, hoje é Dvd) sem qualidade artística que se empilham na mesa de algum produtor de novela que abusa de um poder que não tem? Como fazer teatro sem precisar depender da TV? Me ajudem. Por que vocês não lotam um teatro grande quando não há "gente famosa" no elenco, ó espectadores?

4 comentários:

debora benaim disse...

Excelente texto !

Carlota, a quarentona disse...

O marinheiro jogou a rede no lugar certo. Ou errado, quem vai saber? O fato é vai ter centenas de peixes - seus espectadores essenciais - que vão lhe responder facilmente a questão - trafegam no seu mundo. Quantos aos outros espectadores, nunca vão te responder, não sabem de si. Na verdade você respondeu esta indagação em um dos outros posts, sobre a conversa com seu pai e sua vontade de escrever. De pé, na foto, está o moleque de olhar resoluto, pronto pra levar o cascudo. E presumo que não troque isso por nada.

Fátima Frank disse...

Bom, no meu caso, sempre me atraiu mais... o desconhecido.

alex garcia Scrap Experience disse...

nos gente de teatro como diz nosso querido kusnet temos que amar a arte e viver por ela e com ela. É certo que temos nossas contas nossos compromissos e cumprimos sempre com todos eles, o que passa pela nossa cabeça novos atores é o que vai ser do meu futuro vou ter um contrato ou não vou ser famoso ou não? isso passou pela minha cabeça quando decidi seguir uma carreira no teatro, estou no meu terceiro modúlo e hj o que penso e fazer um trabalho tão lindo e verdadeiro e representar da forma mais verdade o vida do espirito humano, que o restante acredito eu será conseguencia. estou aqui de corpo e alma no teatro e encontrar autores como o Leo me faz pensar. estou no caminho certo... Merda pra nos...